3 de maio de 2017


eu segui naquela rua escura que cruzava com a sua casa, estacionei o meu carro debaixo de uma árvore que sombreava a janela do teu apartamento.
tentei olhar através das luzes vermelhas que já iluminaram as nossas noites, cortei caminhos pelos bares tentando jogar pra fora a lembrança enquanto bebia noites afora garrafas de solidão.
"você também vai encontrar um novo amor," me disse.
e eu encontrei.
amores carnais entre tantas pernas enquanto beijava suspiros e fechava os olhos pra não precisar ver a merda que eu fazia enquanto eu tentava esquecer você.
te segui pelas sombras dos teus rastros, caminhei determinado a esbravejar teus lastros
te matei e depois desenterrei teus pedaços, tentei juntá-los enquanto esbravejava bem alto o desejo de te ter de novo
eu voltei tantas vezes ao mesmo espaço de tempo e lugar em que te disse o último adeus...
e depois te acompanhei silenciosamente, uma presença invisível, que já sabia de cor todos os teus andares. te vi chorar na varanda da janela nas primeiras madrugadas. eu nem conseguia piscar os meus olhos.
tentei escapar de você, mas você não ia embora de mim
sentia a tua dor me perseguir pelos becos e vielas até chegar na tua rua. onde eu parava o carro e olhava pra tua janela, algumas vezes te via passar de um lado a outro, a música baixa que vinha da tua janela me fazia lembrar que era sempre uma das nossas canções favoritas. eu sabia que você ainda não tinha esquecido.
eu até tentei te fazer notar que eu ainda ficava ali olhando você trocar de roupa ou até mesmo levar outros rapazes para deitar ao seu lado no fim das noites vazias que te preenchiam o tempo.
mas foi melhor assim.
o tempo foi passando e eu fui deixando de te seguir como uma sombra pelas ruas
fui esquecendo teus horários, perdendo o contato com o imaginário dos teus sentidos
acabava dormindo demais ou bêbado demais
deixei algumas mulheres tomar o meu tempo
e você mudou de endereço
de cidade
de país
quando dei por mim, seu rosto já me parecia um borrão à meia luz
os seus seios já não pareciam tão brancos e rosados
você já não conseguia iluminar os meus pensamentos com a sua cor
pude evitar te ver quando eu sabia que poderia te encontrar
conheci um outro bar, numa outra avenida principal

e então, te vi passar por mim numa tarde qualquer no meio de uma rua que parecia não ter fim e entre tantos rostos, o teu me parecia reencarnar das sombras de um passado que eu já tinha fingido que esqueci.

você me olhou e não sorriu.
passamos um pelo outro, meros estranhos atravessando caminhos
e então eu parei e olhei pra trás, você também olhou
e então sorrimos, como quem acha cômico para não ser trágico

em um impulso corajoso e ousado eu fui até você
achei que você iria recuar, mas você também teve coragem de ficar
e então eu me direcionei ao teu ouvido e em poucos segundos eu disse algo que parecia que vinha de uma outra eternidade, de um outro tempo, de uma galaxia distante onde o passado ainda era vívido demais pra ser real:
"eu nunca encontrei um novo amor."