28 de outubro de 2015

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"Acendi um cigarro, sentei ao seu lado na calçada meio suja debaixo do pé de frutos que não dá frutos e observei a rua vazia. Era quase uma da manhã e seu carro estava parado perto da minha porta. Você apareceu na janela fumando um cigarro e meio bêbado também, trouxe pizza e me pediu que saísse. Saí. Com roupa de dormir e um cigarro aceso nos lábios, um pouco de álcool na cabeça e um coração partido.
- Que tal um beijo? 
Me pediu, olhando fundo nos meus olhos nada receptivos. Sorri meio torto e virei o rosto pro lado. Eu até queria estar ali, com você. Sua presença me faz bem, mas meu coração não estava nada em paz comigo. E você percebeu, quando virou pro lado e deixou a pizza nas minhas mãos, as chaves no bolso e uma expressão séria. Eu estava pensando nele enquanto você pensava em mim. Mas você estava ao meu lado enquanto ele não se importava em ficar do meu. Meras desculpas não adiantariam e um sorriso meu não te faria esquecer. 
Não somos certos e sempre estamos cometendo erros, até aí você pode me perdoar. Foi um erro te deixar ficar nessas circunstâncias, e você sempre soube que é um erro amar alguém que ama outro alguém. Mas estamos aqui não é? Eu com minhas dores, você com as suas e de certa maneira compartilhamos isso e completamos nossos vazios, mesmo com tantas doses de álcool e cigarros apagados no cinzeiro da sua casa, com sua cama bagunçada e meu cabelo despenteado. E de certa forma já somos muito e ainda não somos nada, por que eu hesito. Te disse pra não se apaixonar, lembra? Então prefiro não saber dos seus sentimentos apesar de você demonstrá-los mesmo assim. 
E que tal continuarmos apenas desse jeito? Você aí, eu aqui e nada de amor-eterno-que-dure-para-sempre. Ainda ando tão machucada por dentro... E você sabe, eu já disse que as decepções sempre batem à minha porta mais cedo do que eu possa controlar, então dessa vez, vamos manter essa estabilidade de quase-romance e não passar disso, certo?
Te deixo pagar meu sorvete da próxima vez e prometo cantar uma música em inglês pra você, assim como você prometeu colocar apenas Boyce Avenue quando estivermos em seu carro e inventar sempre uma boa desculpa pra minha mãe quando chegarmos em casa quase de manhã, trêbados e sujos demais. E pronto. Nem mais, nem menos, nem flores, nem frases feitas, nenhum eu te amo a partir de agora e vamos aproveitar a estadia por que a viagem é curta e quero voltar pra casa mais cedo. Antes que eu possa te chamar de amor e depois sentir vontade de atirá-lo da minha janela quando tudo acabar."

Escrevi em 2011, mais tá valendo até hoje...

1 de outubro de 2015

Egoísmo

Sinto falta de você.
Mas o que sinto falta
é de tudo o que é seu e que me falta.
Sinto falta de minhas faltas que em você não faltam.
Sinto falta do que eu gostaria de ser e que você já é.
Estranho jeito de carecer, de parecer amor.
Hoje eu resolvi assumir as necessidades
que insisto em manter veladas.
Acessei o baú de minhas razões inconscientes
e descobri um motivo para não continuar mentindo.
Quero agora lhe confessar o meu não amor,
o sentimento que faço parecer ser.
Eu não tenho o direito de adentrar o seu território
com o objetivo de lhe roubar a escritura.
Amor só vale a pena se for para ampliar o que já temos.
Você era melhor antes de mim, e só agora posso ver.
Hoje quero lhe confessar o meu egoísmo.
Quem sabe assim eu possa
ainda que por um instante amar você de verdade.
Perdoe-me se meu amor chegou tarde demais,
se meu querer é bem inoportuno e em hora errada.
É que hoje eu quero lhe confessar o meu desatino,
meu segredo desconcertante:
Ao dizer que sinto falta de você
Eu sinto falta é de mim mesmo.

Pe. Fábio de Melo, in Quem me roubou de mim?

24 de maio de 2015


"ás seis eu chego em casa. ansiosa para continuar a ler o livro que lia no ônibus. eu sempre tenho que descer na parte mais exitante. tranco a porta. jogo tudo em cima da mesa. infelizmente tiro o notebook da mochila e o ligo. é uma mania que me faz perder a noite. enquanto espero ele ligar observo ao meu redor. já se passaram três meses depois que me mudei pra esse apartamento, e os quadros todos continuam espalhados pelo chão. sempre esqueço de pendura-los. o livro que disse que continuaria a ler quando chegasse em casa continua fechado em cima da mesa. sobre ele tem minha câmera analógica. comprei o filme há uma semana, prometendo fazer um teste de fotos sobrepostas, mas tirei apenas 3 fotos até hoje. na cadeira, a apostila de atualidades que eu comprei afim de fazer uma boa redação na porcaria do enem ainda está com o plástico. quando a pego para abrir, lembro que esqueci que hoje eu deveria pegar os resultados dos meus exames. e assim vai, estou rodeada de coisas mal acabadas, mal resolvidas, e esse texto não poderia ser diferente."

Por Verônica Rodrigues