25 de junho de 2014

Perdição


Marina, frágil feito puma e quente feito vulcão. Me paralisava. Eu não sabia o que dizer, os seus olhos queimavam como chamas, suas coxas me enebriavam como éter e eu me perdia no último segundo. Cada segundo era uma glória, só por estar ao lado dela, mas isso desgraçava os meus sentidos, me perturbava. 
Eu era um cara até comum, com mania de bancar o fortão, tinha pena de mim mesmo e me vlangloriava de poucos ganhos. Até que ela devastou tudo que eu chamava de mundo, fez a bagunça dela na minha vida, me deixou pirado e depois sumiu. Meses depois reapareceu, às 3h da manhã, abriu a porta do meu apartamento com a cópia da chave que havia lhe dado quando ainda éramos namorados, uma loira nada haver com os cachos enormes e castanhos dela gemia em cima de mim. A vi enlouquecer pela primeira vez, as lágrimas descerem dos seus olhos e suas mãos e pernas tremerem, ela parecia não acreditar, mas respirou fundo, deu um passo pra trás e foi embora.. a loira estremeceu, pegou as roupas e saiu quarto à fora achando ter se metido numa emboscada, mas quem tava emboscado era eu. Eu não sabia o que fazer, não sabia o que pensar, sabia que não poderia estar errado, sei que não tínhamos mais nada, ou eu estava errado? Ela era essa confusão na minha cabeça, o tempo todo. Até distante, mesmo sumindo, sem dar explicações, sem me ligar de volta e sem responder minhas suplicantes mensagens pedindo pra ela voltar.
Entrei no carro, eu sabia onde ela poderia estar, mas não, ela era imprevisível. Ela saberia que eu a acharia lá. Comecei a chorar. O bar, placa NIG-2112, vidro fumê, pólo vermelho, meu inconsciente repetia, eu mal conseguia perceber ou entender bem o que estava acontecendo, ela não estava lá. As lágrimas desciam dos meus olhos, eu estava ficando um pouco cego e chovia, quase vi minha morte, eu estava louco. Praia. 
Chovia insistentemente e jamais imaginaria encontrá-la a céu aberto, mas eu só queria chorar esfaquear e esmurrar a minha raiva, a minha perda. 
Eu já estava encharcado, afundado na areia molhada. Mais uma vez perdido. O sorriso débil e debochado de Marina reacendia em minha mente a cada dois minutos, ah, como aquilo me excitava. Não conseguia esquecer. Quem foi o filho da puta que morreu sem foder que disse que homens não choram? Quando essa porra ia parar? Algum dia eu iria esquecê-la? 
Eu estava sentando tomando um banho de chuva às 04:59 da manhã exatamente onde fizemos sexo pela primeira vez, num fim de tarde de verão, o sol deixava o céu rosa-marfim, essa cor existia mesmo ou eu a havia inventado? O céu, o mar tocando nossos pés, a penetrarão, o vento zunindo nos ouvidos, os olhos fechados, o gosto de areia na boca e sei lá, isso realmente aconteceu ou eu imaginei essa cena? Parecia tão distante agora... Acho que fiquei paralisado ali por mais de uma hora. Eu estava conformado, ela se fora. E eu nem sabia o destino. Ela nunca me disse, ela apenas sumia de meses em meses, pra lugares que eu não conhecia, usando as mesmas e velhas desculpas de que precisava de um tempo para si, que a nossa relação a consumia por inteiro.. O que ela fazia longe de mim? Quem ela conhecia? Com quem ela transava? Eu estava mesmo errado por ter feito sexo com uma loira que eu acabara de conhecer numa festa? 
A essa altura eu já havia engolido o choro, metade de mim havia inflado o ego que se encolhera durante todo o meu desespero e eu já conseguia respirar com um pouco mais de compasso. Me levantei zonzo, sujo e destruído, entrei no carro e fui em direção ao meu velho AP. Meu cérebro resolveu oxigenar todo o ar em minha volta de novo, por um segundo me senti um merda, marica, mulherzinha, filho da puta por ter dado um piti. Foda-se Marina! Quem é essa daí? Rum.
Oitavo andar. A senhora que me vira no elevador se afastou uns 20 metros achando que estava drogado, a porta do 804 estava entreaberta. Entreaberta? Eu não tava tão pirado pra tê-la esquecido assim, na verdade eu estava. Um pé depois do outro, medo. Marina. Na sala de estar. Deitada. Dormindo. Meu cérebro parou de novo. Como eu não vi o carro dela? Alucinação? Ela levou um susto e despertou. 
- Felipe?
- Pensei que tinha...
- Quem é ela?
-...Você não tinha ido embo..
- O nome dela.
- Erica.
- Eu tenho nojo de você.
- Eu sou louco por você. Não vá embora de novo..
- Eu não vou.
- Onde você estava?
- Isso realmente não interessa.
Eu não tinha muitas forças pra perder lutando pra obter essa resposta. Acho que eu viveria pra sempre dentro desse enigma. Eu não sabia no que eu estava me metendo, mas quando eu a vi, deitada, delicada, as mãos entre as pernas, os cachinhos caindo em seu rosto cubrindo sua cintura, e os olhos, ah, os olhos amendoados, castanhos.. E sei lá. Eu já tava perdido de novo. Não tive uma reação muito consciente, eu só queria sentir a pele branca e delicada dela sobre mim de novo, puxei seus braços pra mim e ela trouxe o corpo e me beijou, docemente e delicadamente. E mais uma vez eu soube que eu estava me fudendo de novo, que eu ia sofrer de novo, mas eu nem me importava mais.

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