10 de outubro de 2012

Será ele mesmo?

Raiva. Brigas. Mais raiva. Ela desligou o telefone antes de ele terminar o "eu te amo". Eu te amo fajuto, pensou ela. Sentiu o peso na consciência e se afundou nas cobertas esperando o sono vir. Já era tarde o bastante para se preocupar e tarde demais para o sono resolver aparecer.
Fechou os olhos por um momento e pensou se era isso que queria para a vida toda. Um casamento, uma casinha pequena com chaminé e dois filhos. Acordar cedo pela manhã, sentir a cabeça dele sobre o seu coração e depois se desprender lentamente do abraço, levar café na cama, sexo matinal e outras coisas que andaram sonhando pro futuro. Será que ele era o escolhido?
Era por ele que seu coração batia em descompasso, suas pernas tremiam em desespero e suas lágrimas caiam com mais intensidade. Era com ele que com ou sem camisa de força, ou de vênus, o prazer de dormir e acordar nas manhãs ao seu lado se tornava um vício inexplicável e despretencioso. Acordar apenas para ter certeza de que ele estava lá, ja lhe fazia dormir melhor durante a noite seguinte.
Sim, ele era diferente de todos os outros. Uns não se importavam, outros já pecavam justamente nessa parte, uns eram sufoco, outros ausência. Ele era desejo, vontade de estar sempre perto, de ouvir a voz, sentir o calor, deixar o beijo rolar naturalmente, como chuva em dias frios. Ele era a chuva dos dias trépidos e calmos, daqueles em que você se enrola em um cobertor, faz um chocolate quente e lê um livro na espera de ver a chuva molhar o vidro da janela, enquanto você para e se perde nas gotinhas e no barulho que elas fazem ao tocar o chão. Tão natural... Mas aí vem as tempestades, aquela nostalgia dos dias passados, aquela saudade da calmaria e o desgaste que dá em não saber até quando vai durar.
Ela joga o celular contra a parede e lembra quando ele a jogou contra aquela outra parede de sua casa num movimento rápido e totalmente brusco, e a beijou como se não houvesse outra coisa no mundo que o fizesse mais feliz do que estar ali com ela, lhe arrancando suas roupas e suspiros. Por que lembrar disso logo agora?
E já fazia tanto tempo, mas cada lembrança era uma faísca que aumentava cada vez mais a intensidade do fogo, e queimava lentamente, deixando rastros, algumas dores e outros prazeres dos quais ela jamais poderia se desprender. Ele era parte viva dela que jamais ousaria morrer, mais que lembrança, era prensença mesmo na ausência. Era ódio e amor ao mesmo tempo, era raiva acumulada e lágrimas jogadas fora. Inexplicável, mas não tão difícil de se entender. Eles se compreendiam, mesmo com tanto vai e vêm. E mesmo sem saber que se conheciam, já se entendiam mais do que poderiam imaginar. Eram feitos um pro outro e ainda assim não se encaixavam, mas depois de umas preliminares e uma noite trancados e sozinhos, com um vinho e Hotel Califórnia no disco de vinil, nada mais precisava ser explicado, exceto o porquê de se amarem tanto assim. E sim, cabiam perfeitamente um no outro, como um só. E nisso não havia o que contestar, eram perfeitos. Nasceram para permanecer justamente ali, um dentro do outro, inseparáveis e incompreendidos. Deixa ser. Um dia acabam mesmo numa casinha com chaminé, numa cidade fria e com dois pequenos travessos, a cara do pai ou da mãe. Vai saber. Mais de qualquer forma, sempre juntos, mesmo que apenas na lembrança, irão permanecer.

Nenhum comentário:

Postar um comentário