31 de outubro de 2012

Manhã quente aqui nessa cidade

Manhã quente nessa cidade, arrasta toda a disposição de acordar cedo. Ele acorda ainda meio sonolento e sai pra procurar sorrisos bonitos e batons vermelhos, vestidos curtos e blusas decotadas. 
Ela continua dormindo do outro lado do país, esperando uma força divina levantar-lhe da cama, e alguns minutos depois desperta e seu primeiro pensamento pousa sobre ele, do outro lado, sobre saias e decotes e seu natural instinto de galanteador que não pode ver um rabo de saia.
Ela se pergunta, por que se apaixonar logo pelo seu pior pesadelo?
E passa os dias a imaginar qual será a próxima garota que cairá no papo furado daquele rapaz de sentimentos duvidosos e sorrisos tortos que outra garota qualquer derreteria sob o sol.
Amor é algo que não se pode discutir mesmo. Há meses atrás ele só tinha olhos pra ela, seus abraços eram apertados, os beijos eram quentes e as noites eram um cenário pra prolongar o velho romance, palavras doces e olhares furtivos, declarações sinceras até então.
Deixou o tempo passar e levá-lo embora. Foi com ele os sorrisos e beijos e abraços e declarações. À ele já não lhe resta mais uma palavra bonita de saudade ou uma lágrima desperdiçada no meio das lembranças do que passou.
Mas ela ainda sente. Mesmo do outro lado ainda existe uma esperança, mesmo vã. Mas do que adianta viver todo esse amor se ela já está sozinha no meio da confusão?
É triste dizer um "eu te amo" de um lado da linha e ouvir o silêncio do outro. 
Amor por telefone não dá. Morre antes mesmo de começar. Então vão-se os sorrisos e sobram o que é resto. Do que foi deixado pra trás. Sobram partes infinitas de um amor que existiu, que precisa ser esquecido, mas ainda não foi.
Ela se pergunta se existe mesmo esse tal amor de longa data mesmo nas distancias da vida, impostas pelo tempo, por Deus, ou seja lá por quem for. Ele está do outro lado, moça. Ele não te vê mais. Existe amor sem o toque? Sem aquele frio na barriga que dá quando um beijo inesperado te escorre do canto da boca, ou aquele abraço forte que fala mais que mil "te amo" juntos?
Existe amor sem aquele olhar que se entrega mesmo quando se quer omitir? Ou sem aquele toque cúmplice das pernas dela que (in)voluntariamente tocam as dele quando sentados um do lado do outro naquele sofá da sala de estar, ou até o olhar curto e meio constrangedor seguidos de sorrisos férteis de uma noite que só está pra começar debaixo do cobertor? Eu acho que não.
Mas ela jura que sim. E se mantém na linha, não vai pra frente nem pra trás. Fica lá, inerte. Braços abertos, cabeça erguida, esperando pelo abraço. Aquele abraço que ela nem lembra mais como é.
Mas não desiste. Está lá se equilibrando na ponta dos pés, cai não cai. 
Se cair eu aparo e se não cair, bem, ela é muito mais forte do que eu pensava.

25 de outubro de 2012

Dissertações masculinas Part. I

Liah dá seu último gole de Whisky e me olha meio atravessado sentindo a garganta arder. Percebo um medo em seu olhar e mais uma vez ela diz algo que eu não queria ouvir que me leva a querer cada vez mais deixá-la. Como se não bastasse seu vício de álcool e ainda mais as suas paranoias. Amá-la nunca é suficiente? Nunca. Às vezes não sei o que ela quer, noutras sei tão bem quanto ela. Talvez tantas brigas assim lhe dê tesão, eu sinto nojo. Queria que ela apenas não falasse às vezes. Seria pedir muito?
Chego em casa cansado, perdido e sonolento. Ela briga, faz cara feia e quer conversar, eu digo não e ela não entende. E mais uma vez ela diz que me odeia e prefere me ver morto. Talvez eu não a ame como eu pensava antes. Hoje penso diferente. Sei que ela entende e sabe disso. Sei que ela me ama e quer entender porque eu mudo às vezes, eu também não sei. Na verdade sei, mas ela não deve saber. Existem tantas pessoas melhores que ela, eu também sei. Mas não devia pensar nisso. Eu não queria terminar com ela, não agora. Sinto que irei me arrepender arduamente depois, mas ficar perto dela não me comove mais. Seu sorriso é lindo, sua voz também, só que antes eu gostava mais deles. Seu corpo me deu prazer antes, mas hoje, sei lá. Não o quero mais, não a quero agora. E ela não têm que saber porquê. Mas insiste. Pobre Liah, talvez eu a esqueça daqui uns anos, mas seus insultos e mágoas ficarão para sempre comigo, pra que eu não esqueça o quanto eu me divertia com isso. Te ver chorar não me faz bem, mas te ver bufando de raiva e ódio me diverte. Sinto vontade até de aplaudir, belo teatro, belo drama. E os insultos, então? Adoro.
Drama é sua palavra final. Devia ser atriz de novela, ganharia bem. Eu não a odeio por isso, mas me divirto. Perco a paciência às vezes ou quase sempre. Mas dá pra relevar. Não sei por que ela leva as coisas tão ao pé da letra. Mulheres são sempre assim? Meu psicológico intelectual sobre a gnoseologia das mulheres diz que sim. Mas foda-se. Não quero entendê-las.Não quero entender Liah. Foda-se ela também.
Vou ficar aqui deitado, descansando e tendo sonhos eróticos com uma mulher bem mais sexy e loira, e se ela quiser continuar sofrendo por me achar distante, mais longe dela irei ficar. É a lógica masculina poxa! Aprende isso!

Em homenagem à T. L., com amor.

16 de outubro de 2012

In your arms

Sabe quando você ama tanto que não sabe onde guardar tanto amor? É como estar preso e não querer se desprender e mesmo assim lutar pra fugir.

Eu deixo então sorrisos e lágrimas sobre o travesseiro, levo milhões de expectativas e jogo fora todas as chances de ser tua novamente.
Como eu li uma vez em um livro qualquer "o amor sempre deixa marcas significativas", e deixa mesmo. Que é pra nunca esquecer, e sempre antes de fechar os olhos verás o quanto as marcas desse amor deixaram dores em seu peito, e mesmo que isso não lhe dê motivos pra chorar, haverá sempre uma pequena dose de lembranças, e estas vão doer. Digo isso por que guardo mais lembranças do que a sua presença.
Então eu acordo e tomo um café, mais estou sempre sonhando com seu rosto e suas mãos. Estou sempre cantando a nossa canção, tentando silenciar sua voz na minha cabeça.
Mas uma coisa me conforta, eu sempre volto pros seus braços, neles não encontro apenas carne e ossos, encontro abrigo. Um pequeno lugar em que eu posso fechar os olhos e sorrir ou chorar sem precisar fingir dores ou alegrias demasiadamente falsas.
Lugar que mais ninguém soube me oferecer, e você o fez, sem pedir nada em troca. Um amor que não se retribui, apenas se dá.

10 de outubro de 2012

Será ele mesmo?

Raiva. Brigas. Mais raiva. Ela desligou o telefone antes de ele terminar o "eu te amo". Eu te amo fajuto, pensou ela. Sentiu o peso na consciência e se afundou nas cobertas esperando o sono vir. Já era tarde o bastante para se preocupar e tarde demais para o sono resolver aparecer.
Fechou os olhos por um momento e pensou se era isso que queria para a vida toda. Um casamento, uma casinha pequena com chaminé e dois filhos. Acordar cedo pela manhã, sentir a cabeça dele sobre o seu coração e depois se desprender lentamente do abraço, levar café na cama, sexo matinal e outras coisas que andaram sonhando pro futuro. Será que ele era o escolhido?
Era por ele que seu coração batia em descompasso, suas pernas tremiam em desespero e suas lágrimas caiam com mais intensidade. Era com ele que com ou sem camisa de força, ou de vênus, o prazer de dormir e acordar nas manhãs ao seu lado se tornava um vício inexplicável e despretencioso. Acordar apenas para ter certeza de que ele estava lá, ja lhe fazia dormir melhor durante a noite seguinte.
Sim, ele era diferente de todos os outros. Uns não se importavam, outros já pecavam justamente nessa parte, uns eram sufoco, outros ausência. Ele era desejo, vontade de estar sempre perto, de ouvir a voz, sentir o calor, deixar o beijo rolar naturalmente, como chuva em dias frios. Ele era a chuva dos dias trépidos e calmos, daqueles em que você se enrola em um cobertor, faz um chocolate quente e lê um livro na espera de ver a chuva molhar o vidro da janela, enquanto você para e se perde nas gotinhas e no barulho que elas fazem ao tocar o chão. Tão natural... Mas aí vem as tempestades, aquela nostalgia dos dias passados, aquela saudade da calmaria e o desgaste que dá em não saber até quando vai durar.
Ela joga o celular contra a parede e lembra quando ele a jogou contra aquela outra parede de sua casa num movimento rápido e totalmente brusco, e a beijou como se não houvesse outra coisa no mundo que o fizesse mais feliz do que estar ali com ela, lhe arrancando suas roupas e suspiros. Por que lembrar disso logo agora?
E já fazia tanto tempo, mas cada lembrança era uma faísca que aumentava cada vez mais a intensidade do fogo, e queimava lentamente, deixando rastros, algumas dores e outros prazeres dos quais ela jamais poderia se desprender. Ele era parte viva dela que jamais ousaria morrer, mais que lembrança, era prensença mesmo na ausência. Era ódio e amor ao mesmo tempo, era raiva acumulada e lágrimas jogadas fora. Inexplicável, mas não tão difícil de se entender. Eles se compreendiam, mesmo com tanto vai e vêm. E mesmo sem saber que se conheciam, já se entendiam mais do que poderiam imaginar. Eram feitos um pro outro e ainda assim não se encaixavam, mas depois de umas preliminares e uma noite trancados e sozinhos, com um vinho e Hotel Califórnia no disco de vinil, nada mais precisava ser explicado, exceto o porquê de se amarem tanto assim. E sim, cabiam perfeitamente um no outro, como um só. E nisso não havia o que contestar, eram perfeitos. Nasceram para permanecer justamente ali, um dentro do outro, inseparáveis e incompreendidos. Deixa ser. Um dia acabam mesmo numa casinha com chaminé, numa cidade fria e com dois pequenos travessos, a cara do pai ou da mãe. Vai saber. Mais de qualquer forma, sempre juntos, mesmo que apenas na lembrança, irão permanecer.