25 de março de 2012

Prelúdio


Bons tempos nos esperam na janela amor. E hoje está frio como naquele dia em que chovia e você me telefonou. Falamos da noite que passamos juntos e como foi lindo te abraçar depois que entramos na sua casa molhados e com frio, falamos da maneira como seu coração bateu forte quando eu deitei sobre você e sorrimos ao olharmos um para o outro como se não houvesse mais nada no mundo que pudesse tirar nossa concentração.
Bons tempos são esses amor que em meio à tribulação nos fazem sorrir, por poucos instantes, mas sorrisos intensos que valem a pena, sim. E te ver feliz é até bonito, é como se toda a história que vivemos até aqui de fato tivesse alguma importância pra você, e que essas lembranças que sempre passam por nossas cabeças, tivessem uma intensidade forte e excitante como num filme a la privé. E se ainda estamos juntos, não há porque não lembrar. Difícil seria ter que passar pelo que estamos passando e por medo, nos privar.
Eu sei, os tempos bons vem e vão como maré, hoje você sorri e amanhã você se detém em olhar pro lado e chorar silenciosamente por saber que é mais um dia. Mais um dia e mesmo que seja vitorioso por você estar sobrevivendo, ainda sim é triste por você está sobrevivendo dessa maneira. Inerte. Já não há mais toque, os sorrisos cada vez menores e vazios intimidam nossos olhares, as palavras fogem de nossas bocas e caem no chão desse quarto de hospital e por lá ficam, inertes também.
Eu queria te resgatar daí, te arrancar esses catéteres e jogar fora esses soros todos e fugirmos desse hospital disfarçados, com roupas de médico. Mas eu não posso fazer porque quero que você viva, eu te mataria se realizasse seu desejo, entenda por favor. Eu me imagino em você, e você sabe e conhece bem, eu sofro a solidão alheia, curto a dor do outro e choro com você e por você.
E hoje acordei arrependida e com medo, mas acordei feliz. Talvez por ontem, aliás, foi o melhor dia que tive desde quando cheguei aqui. Eu esperava por esse momento como quem espera que a eternidade se concretize em minutos. E meu corpo pediu, implorou, desejou algo que eu não podia dar a ele: você. E eu fui instigada a te falar, eu precisava do teu corpo como você precisa de sangue pra sobreviver. Quanto egoísmo eu sei. Não devia ter permitido, não devíamos ter nos permitido. Mas somos muito carnais, e isso é amor. Amor que não se contenta apenas com olhares ou prelúdios é preciso a consumação, o ato, o pecado em si. E é disso que gostamos, é disso que precisamos, é isso que nos mantém aqui.
Se eu pudesse choraria cada gota como chuva de verão que vem com força e devasta, depois vai embora até mesmo com as lembranças. Mas eu não consigo chorar porque eu sinto que estou completa e isso me deixa eufórica também. E não vou chorar porque não quero esquecer. Eu sei, é egoísmo. Mas você também se sente assim apesar do cansaço. Mas por hoje amor, vamos apenas nos completar. Somos egoístas mesmo e isso nós já sabíamos.
Por hoje, lembranças caem forte sobre meu céu como um raio. Mas não vai chover. Não vou esquecer. Vou estar aqui se precisar, você sabe. Sou fraca também. Agora só rezo amor, rezo pra você ficar bem. E sei que ficará, por mim, por nós e por todos os outros detalhes que não saem da nossa cabeça, eu acredito que você voltará e se levantará dessa cama mais forte do que antes e realizaremos nossos planos juntos, ou talvez separados, não sei. Mas de alguma maneira interligados.

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