17 de fevereiro de 2012

First



Ela acordava às 6 e levantava da minha cama num susto, às vezes falava dormindo, antes sussurrava um eu te amo, quieto, no silêncio escuro da madrugada fria debaixo do meu lençol. E eu acariciava suas costas e seu cabelo, desejando ter pra sempre aquele rosto sobre a minha barriga e aquele corpo em cima do meu.
Já era quase rotina vê-la acordar e vestir a roupa do colégio, o mais rápido possível pra chegar a tempo de assistir a segunda aula, e eu permanecia sentado na cama observando sua maneira desastrosa de colocar o tênis e sorrindo do jeito esquisito que ela amarrava o cadarço.
Então ela me olhava de soslaio e sorria um sorriso de deboche por se achar melhor do que aparenta ser e dizia quase num sussurro "não sou esse desastre sempre, é que hoje você não me acordou", e eu continuava rindo e falando que uma aula de etiqueta lhe cairia bem, por que dizer alguma coisa sempre a deixava estérica e eu me divertia com esse jeito louco e seu humor de fera pela manhã. Quando pronta dizia que tomaria um café na rua mesmo e me dava um beijo doce de quem volta amanhã ou depois.
E me lembro do quanto foi difícil ver você se acostumar a nós, a tudo. Do dia em que à luz de velas você se entregou pra mim pela primeira vez. Eu vi lágrimas caírem e molhar a minha camisa, mas você disse que estava feliz. E mesmo na dor do vai e vêm de nossos corpos nus, você estava feliz. E eu olhei nos teus olhos que dilatavam de prazer, ou dor e senti que você me queria tanto quanto eu queria você. Não sei o que me prendeu tanto, talvez a lembrança dos teus cabelos castanhos claros sobre meu rosto, ou suas coxas entre as minhas, talvez o toque frio das tuas mãos na minha nuca quando eu estava em cima de você, ou seu sorriso libidinoso transbordando desejo quando eu tocava tuas coxas delicadamente pra te provocar. Não sei o que me aconteceu. Você não foi a primeira nem tampouco a última, eu lhe havia sido o primeiro, mas pra você, apenas o primeiro de muitos. Já quanto a mim, foste a única que dei meu coração dentre todas as outras.
Mas o tempo passou e você já não lembrava mais do sabor do meu beijo e sempre hesitava quando eu te tomava em meus braços, uma dor de cabeça, um compromisso, sei lá. E no fundo eu sabia que outro tocava seus seios, e suas pernas, e sua nuca, e te fazia delirar entre tantos vai e vêm. E eu permanecia aqui, apenas como apoio pra quando aquele outro te desse um pé na bunda. E você vinha chorar em meu ombro, molhar a minha camisa e dizer que eu era o cara certo. E eu te abraçava e te olhava nos olhos, eu sabia que era verdade. E sabia que por mais que nós fossemos apenas um caso sem começo, meio ou fim, eu te amava. Dentre todas as outras, era você quem tinha meu coração de bandeja. E foi por isso que arranquei teu vestido daquela maneira, e te joguei contra aquela parede marrom escura, por isso te beijei daquela forma tão intensa, você até se assustou, talvez com a forma como te comi naquela noite, ou com a raiva que eu sentia que mal consegui disfarçar.
Foi por isso que senti raiva, por que sabia da sua promiscuidade e que só ia possuí-la naquele dia e depois você iria me tratar de novo como o melhor amigo de conversas jogadas fora e essas coisas que me deixam puto, mas mesmo assim, eu queria te ter aquela noite, eu queria teu corpo colado no meu outra vez, mesmo sabendo que outro já havia tomado o teu coração e abusado do teu corpo. Por isso que te deixei feridas que demorarão a cicatrizar, marcas de um amor que de fato não deveria existir. Mas existe, e queria que você nunca se esquecesse.
Foi por isso que sangrou naquela primeira vez, respingos de sangue na colcha branca da cama e sobre o sofá, isso você jamais vai esquecer. Você me deu sua alma naquela noite, sua inocência estava em minhas mãos. E eu em troca te dei meu coração. Já sua inocência eu jamais poderei devolver, mas meu coração será sempre teu menina, sempre teu..

2 comentários:

  1. Ual, fiquei sem palavras. Você escreve bem demais Carol, fiquei presa no texto do começo ao fim.
    Saudades daqui.

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  2. Uma bela narrativa, com detalhes cativantes e cenários estimulantes.
    Vejo que toda declaração é sempre equipada com uma força diferente, capaz de prender o mais suscetível dos leitores.
    É isso que você faz aqui. Prende e não deixa que as pessoas continuem o dia sem o seu pinto final.

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