3 de junho de 2011




Ela caminha todas as manhãs quase um quateirão pra chegar até a escola. Finje sempre bom humor para os desconhecidos, mas de manhã é um verdadeiro porre. Ela guarda consigo um quase amor e versos prontos. Guarda também um cartão de natal que ganhou da mãe, quando os problemas eram raros e as brigas quase não existiam. Ela não sente falta de muitas coisas, mas há muitas coisas que ela queria ter de volta. Mas se conforma, como todo mundo.
Passa noites insones e sonha alto a menina. De sorrisos ela fez sua casa, e de lágrimas edificou sua vida. Se serve de base, ela tem amor. Mas não é uma base segura, por que amar é um risco. Mas ela nunca se importou. Ela tem um dom que muitos chamariam de defeito, outros de bobagem, mas eu chamaria de imperfeição. Ela escreve. E isso é lindo, mas quando ela escreve é como se seus medos e sonhos se misturassem e por um momento, houvesse uma solução para tudo. Mas não há. Por isso é uma imperfeição. Há beleza demais em suas palavras, e tudo que é belo, ofusca a realidade e nos faz não querer enxergar o sincero, o real. Torna fácil as dificuldades, ilude.
Sinto um leve pesar nos olhos dela e uma esperança de que coisas boas virão no seu sorriso. E a vejo passar por mim, sem sequer me notar. Ela finje frieza quase sempre, quer ser forte, mas no fundo sua insegurança não a deixa dormir. Mas é imperceptivel, porque ela não dá o braço a torcer. E admiro. E por ela, há de ser sempre assim.
A conheço pouco mas reparo bastante nos simples detalhes que a compõem. Ela é igual a mim, descobri isso hoje. E espero que um dia ela repare nesse moço, que não vê apenas o que ela quer que todo mundo veja. Eu vejo mais, vejo mais que pele, carne e osso. Eu vejo um coração, que um dia há de pertencer a esse moço, que ela não vê passar.
Eu não a deixarei se perder de mim. Sei que às vezes ela não me vê, porque sou aquilo que ela mais teme. Porque o que tenho para oferecer, é bem mais que uma noite, é uma vida inteira. E ainda sou a única opção quando ela se perde. Sou o melhor caminho que ela deve seguir. E um dia ela saberá. Cedo ou tarde, ela finalmente descobrirá a verdade de vez.

Fictício.