26 de setembro de 2010

A outra



A mobilha desgastada de uma mesinha de canto, a poeira enfileirada e bem descansada sobre uma flor azul, vai começar a estação das flores, que nascem devagar sobre o chão macio de um jardim qualquer. Meus olhos percorreram todo o canto vazio da sala de estar, estivemos ali uma última vez.
Seus olhos marcantes me olharam de canto, antes de atravessar o corredor, uma lágrima salgada rolava sobre seu rosto claro, resplandescente. Algumas palavras frias soaram distante, ecoando por toda a casa. Algo como um "até breve", que pra mim soou mais como um "adeus, até nunca mais".
Poucas oras antes, tudo parecia tão natural, a noite calma, uns cigarros no cinzeiro, uma garrafa de vinho tinto, e duas pessoas que faziam amor na pequena sala de estar de um AP minúsculo.
Era madrugada, o som das árvores batiam contra o vidro da janela do segundo andar, a brisa suave sobre nossos corpos, o calor febril das nossas vidas, em chamas. A doce melodia da canção que você sussurrava em meu ouvido, os sorrisos leves, descontraídos. Nós realmente não precisamos de muita coisa, você pra mim já basta, queria tanto te ter aqui, pra sempre. 
Quantas vezes acordamos as 5 da manhã ouvindo Beatles no rádio, quantas vezes tive que te ver partir sem saber quando voltaria de novo? Quantos dias passei presa nesse apartamento, esperando uma ligação sua, um sinal. É tão difícil te ter comigo, é quase impossível te ver todos os dias.
Hoje, prometi a mim mesma, vou te esquecer. Mesmo que isso seja praticamente impossível de acontecer, por que estou perdendo meus dias sem sair de casa, estou perdendo a minha vida lá fora, deitada nessa cama, esperando por você.
Cada parte desse recinto tem o teu cheiro, o cheiro do teu cabelo preto, a taça de vinho que tem a marca dos teus dedos e da tua boca macia, a vida que você deixou aqui, uma parte de você mora comigo, mas ela é quase invisível. Enquanto eu só queria te ter aqui por completo, de corpo e alma.
Mas você sempre vai embora as 5 da manhã, deixando seu cheiro no meu travesseiro branco, e eu acordo de novo no vazio da solidão, e a única coisa que me rodeia e perdura por dias a fio é a saudade infinita que tenho de você.
Hoje então, decidi que assim que saíres por esta porta sem dizer quando volta, assim que teu até breve soar como um adeus, uma dolorosa despedida, irei te esquecer.
Porque amor, eu cansei. Cansei de ter só de madrugada, cansei de fingir ser alguém que não sou e definitivamente cansei de ser a outra.

História fictícia

5 comentários:

  1. Belo texto. Pasrabéns.
    FOI DESSE JEITO QUE EU OUVI DIZER... e MEU CADERNO DE POESIAS, desejam uma excelente semana para você.
    Saudações Educacionais !

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  2. Belíssimo. O desfecho me surpreendeu. Estou encantada até agora com tamanha descrição de fatos. Chega a ser apaixonante. Essa história de ser a outra acaba sempre com os nossos corações. Somos frágeis demais.

    Um beijo.

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  3. Isso sim é uma libertação de prazeres temporários e angústias eternas.
    Apontou para o norte e arrumou as malas para o intermitente.

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  4. é, essa parada de ser a outra é deveras escroto...
    :s

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