31 de agosto de 2010

Uma oração.



O amor é cego, repeti pra mim mesma várias vezes antes de dormir, na madrugada insolente, fria e áspera, me enrrolo aos lençóis esperando o sono chegar. E finalmente me dei conta de que estou tecendo a minha vida por pontos cegos de agulha, e costurando o meu destino com linhas escuras e finas, e sem arremates a minha vida segue essa linha esguia e torta, apertando fundo um coração um tanto cansado, mas que bate, que quer continuar. "Esperança é a última que morre, criança." Um dia ouvi dizer, e nunca esqueci.
Uma noite, acordei em meio ao frio e saí por entre as ruas vazias, deixando a neblina congelar meu corpo. Bati na sua porta e esperei você abrir, caí em desespero quando você demorou, então duas mãos quentes me levantaram do chão, segurou meu rosto e beijou a minha face pálida e suja na escuridão. Deixei as lágrimas cairem assim que você olhou em meus olhos e disse: "eu estarei aqui para sempre, filha." E do seu rosto vinha uma luz reconfortante, do seu abraço pude extrair o calor que eu precisava, e me senti tão livre. Eu pude ver o sorriso que nascia em  meus lábios e os deixei habitarem minha face por alguns minutos. E fui embora. Sim, eu fui feliz, por um breve instante, mas quando dei por mim, já estava de volta a minha cama, no frio irremediável. Não bati mais a sua porta, mas confesso que senti e sinto vontade de voltar aquele tempo, mas algumas coisas me afastam de você, e sei que eu deveria manter contato, eu sei que eu deveria ter continuado, mas não tive mais coragem de bater a sua porta depois de tantos erros, tantos desencontros, preferi deixar assim como está. Mas se eu ainda tiver uma chance, um dia quem sabe, no meio da madrugada eu vá até sua casa e tome um bom chá com você, quem sabe sentaremos na varanda e riríamos do passado que já se foi, quem sabe você me perdoaria por tudo que eu fiz, quem sabe (...)

26 de agosto de 2010

Me faz lembrar você


Talvez eu esteja num mar de sorte. Vejo cores, muitas cores. De todos os tipos; sempre costumo reparar nelas. Sempre tive essa mania, talvez eu tenha olhos sensíveis a cores. Não sei porque só eu reparo nelas, em uma dia nublado, um céu desbotado, um cinza escuro, calado. 
Hoje acordei e reparei no amarelo claro que vinha da minha janela, perfilando as cortinas, reparei no som dos galhos batendo contra a janela, e as gotas de água que caiam lentamente no chão de gramas. Não me surpreendo quando os dias começam assim, geralmente são dias em que sinto um pouco mais livre do que de costume. Dias em que coisas ruins costumam não me afetar. E meu sorriso nesses dias costumam ser mais sinceros e tão grandes, que chega a doer os cantos dos lábios. Mas esse é o meu melhor sorriso, porque vem de dentro, das profundezas da alma. 
Gosto quando os dias começam nublados e frios, costumo reparar no céu, os tons escuros me fascinam, mas eu preciso estar de bom humor. E o vento gelado no rosto me faz lembrar que ainda vivo, que ainda tenho tanto pra viver, que mais coisas novas virão. E o doce toque da brisa me faz lembrar de amores vividos, amores passados, amores de agora. Me faz lembrar de um sorriso claro e gentil, de uns olhos verdes cor de mar, que sorriem mesmo sérios. E me faz sentir bem. O calor que vem do meu casaco, me faz lembrar do calor que vem de braços fortes e quentes, que me consolam quando meu olhos insistem em ficar fechados pra não ver o dia acontecer, me faz lembrar do calor de uma respiração sobrecarregada de desejo quando sente o calor dos meus lábios. O teu casaco de lã me faz lembrar da cor do teu cabelo escuro, plumas negras e macias. E o teu abraço calmo e sincero nas noites frias, são lembranças que me vem devargarinho sempre antes de dormir, e eu durmo com essas tais lembranças guardadas. E não canso pensar e repensar todos os dias antes de adormecer.
Porque definitivamente, eu nao me canso de você.

10 de agosto de 2010

Do que preciso?


Depois de tanto tempo... Noites e noites dormindo, talvez por não ter motivos pra acordar. Aquela voz ao telefone na alta madrugada, ou aquele encontro as escuras, fugindo de casa. Os bares, as bebidas, os amigos, os amores, os inícios, os meios e fins. As tardes de outono, as noites frias, casacos, amigos, conversas fiadas, esperando o tempo passar.  Não que a solidão pertube, ou que o silêncio me irrite. Mas falta. Falta alguma coisa, ainda tenho tanto pra viver. Os dias passam, tão rápidos. Chega a assustar.  E a falta cresçe. Saudade. Do que vivi, do que não vivi.

Mas, há algo de extrema importância, minha cabeça pede por isso, minhas mãos, meu coração, eu peço. Essa vontade insana de errar, de fugir de toda a realidade, de ser bem mais astuta e má. Essa vontade de ter tudo nas mãos, de fugir dos padrões, de me aventurar em romances sem nexo,  viver uma vida sem restrições, sem dar importância ao que realmente importa. Esse meu espírito aventureiro, essa minha alma de pirata que anseia vagar por altos mares,  buscar novos horizontes, me perder em terras desconhecidas, almejar o infinito, ficar à deriva.

Ainda somos tão jovens, como dizia a velha canção, e busco por essa positividade toda, aproveitar cada milésimo de tempo aprofundando-me em meus própiros pensamentos, deixo-os fugir de mim, deixo-os buscar seus interesses mútuos, deixo-os por aí. Deixo pedaços do que fui, do que sou a cada passo impulsivo e improvisado que dou.  Levo comigo coisas que marcam uma época, ou que não marcaram tanto assim. São pequenas partes de mim que aprendi a colocar na sua devida ordem. E continuo procurando por novos caminhos, aventuras, aprendizados.

Não importa o que seja, importante ou não, farão parte de mim, de alguma maneira. Pessoas, objetos, sorrisos, lembranças, folhas secas de outono, o vento gélido do inverno, frases de um livro qualquer, um rosto desconhecido que avistei em algum lugar, coisas que quase ninguém dá importância, mas que são relevantes pra mim. E talvez, essa falta toda que cresce seja mais um detalhe que anseio por encontrar, talvez um sorriso, ou um simples gesto de alguém, ou mais um de meus insanos desejos quase impossíveis.
Afinal, ainda é permitido sonhar, mesmo sem poder tirar os pés do chão.

5 de agosto de 2010

Utopia


Então eu tirei uma conclusão sobre o amor. Ele nunca está no meio termo, é excêntrico, nunca é mais ou menos. Não adianta ficar na metade do caminho, ou vai ou fica.
Não adianta esperar sentado que as coisas boas aconteçam, é preciso ir atrás, se quer, vá. Não se pode deixá-lo pra depois, ele não gosta de ser substituído por nada. Quer ser sempre o ator principal, quer controlar toda a situação.
Se deixarmos pra depois, acabamos ficando pra trás também. Quanto egoísmo.
Talvez essas sejam conclusões drásticas de uma longa espera, de uma longa reflexão exaustiva. Mas é necessário parar as vezes e deixar-se levar.
Me permiti habitar em meu próprio espaço, este que mais ninguém conhece. Onde moram minhas incertezas, medos, desejos, onde mora a parte do meu eu que eu nunca conseguir entender, nem controlar.
Me deixei cair no divã, olhando da janela um fim de tarde conteporâneo, vazio.
Esperei que os pensamentos viessem, esperei que o medo arranhasse as portas do meu coração e o permiti sair e vagar por aí.
Permiti que as incertezas invadissem meus pensamentos e me fizessem crer que nunca estamos certos de nada, que a vida nunca é um ponto final, sempre haverá vírgulas, reticências e muitos pontos de interrogação.
Não precisei chorar, mas uma dor cortou meu coração em milhões de pedaços e talvez seja por isso que eu esteja sentindo um vazio, uma solidão.
Talvez já esteja tarde, esperar nunca foi uma qualidade pra mim. Minha impaciência e ansiedade me fazem querer desistir na metade do caminho.
Foi aí que percebi que o amor é egocêntrico. Me faz esperar arduamente, sem pena e não se importa se isso me fere, me irrita, ou me tira do sério.
Então, esperaria um pouco mais. Mesmo que isso não fosse adiantar. Mesmo que minha paciência estivesse por um fio. Mas tudo bem. Dessa vez não ia deixar pra trás.
Eu sempre soube que tudo tem um final. Então eu esperaria, até o fim.
Mesmo que o tempo começe a se arrastar, e pare por alguns momentos. Isso é típico. Mas é fácil se acostumar.
Eu posso até perder esse altruísmo absoluto que ainda me mantém aqui, e perder totalmente a cabeça e chorar até as lágrimas cessarem. Eu corro esse risco. Não sou de ferro.
Mas, ou desisto pra sempre, ou continuo, na esperança de enfim realizar as tais expectativas que me mantém solícita. Extremista, que eu sou.

3 de agosto de 2010

Não é tarde pra nós dois



Quando eu acordar de manhã e a luz do sol bater sobre meu rosto, quando eu me espreguiçar e olhar pro lado, eu quero ver você. E quando você achar que nossos corações batem descompassados, e nossos olhares não se fixam mais, eu quero que me beije, intensamente.
E quando começar a fazer frio e a cidade toda calar, quando as luzes acenderem e as estrelas brilharem, olhe para o lado, sou eu quem estará sorrindo.
Quando a música tocar e você acelerar o carro em uma rua vazia, sinta a adrenalina nos cercar. E em uma tarde de inverno eu irei te abraçar, você sentirá meu coração bater. E nunca será tarde pra nós dois.
E você sorri de um jeito incrível, eu posso estar encantada demais pra raciocinar, é que você me tira a respiração, sem nem ao menos me asfixiar.
Eu conspirei um plano infalível pra nós dois, que tal fugirmos? Pelas ruas da cidade, olhando as luzes e as paisagens, e que tal acamparmos a beira de um lago e esperarmos o dia nascer?
Um dia, eu irei embora, um dia nós não nos veremos mais, e eu nunca quis me aproximar assim de alguém, mas você mudou minha concepção.
Um dia, nós não nos pertenceremos mais e isso dói, mas enquanto estivermos aqui, ainda há tempo de aproveitar. E eu não quero perder teu sorriso, nem teu olhar pensativo quando não tens nada a dizer.
Ainda há tempo amor, há tempo sim.

1 de agosto de 2010

Ponto final



As horas passam, o frio do fim da tarde, o suéter rosa, os cabelos ao vento. A rua deserta, era uma típica tarde de domingo. Ela parou na véspera, as árvores balançavam de um lado a outro, pequenas folhas voavam sem destino. E lá estava ele, parado, encostado em uma árvore enorme que cobria quase toda a frente de sua casa.
O que ele fazia ali? Seu casaco cinza desbotado, os tênis sujos de lama, cabelo despenteado, uma sombra escura na sua vida, um passado irrelevante que ela tivera e que agora queria com toda sua força esquecer. Gotas de chuva caiam do céu, estava começando a serenar. Ele sempre foi um empecilho na vida dela, sempre alheio a tudo. Nunca foi um bom amigo, nunca foi um bom namorado, sempre fugia quando ela mais precisava. E agora estava ali, um sorriso falso, tentando parecer amigável, querendo uma reconciliação. "Grande imbecil." Pensou ela. Seus olhos arregalados de fúria, desejavam insanamente colocá-lo dali pra fora. Mas manteve o controle por um pouco mais de tempo.
- Então, o que quer? Ela tinha o direito de saber, antes de arrastá-lo dali para o meio da rua.
- Conversar, apenas.
Não, ela não estava afim de conversa, iria já mandá-lo embora. Com educação, pra não parecer ignorante.
- Vá embora. Não o quero aqui.
Ele nem se moveu. Teimosia, um de seus maiores defeitos. Então, era uma guerra fria agora. Ela avançou a passos rápidos em direção a porta, abriu-a bruscamente e depois fechou-a com toda força atrás de si. Foi em direção à janela, olhou fixamente os olhos dele, esse seria o último olhar.
- Escuta, acabou. Não me procure mais, eu não o amo mais, se é isso que quer saber. Esqueça que um dia eu estive com você, esqueça meu nome e endereço. Enfim, você nunca existiu pra mim e eu nunca existi pra você. O amor acabou, aliás, ele nunca existiu entre nós dois. Passar bem.
E ponto final. Ela virou as costas pra ele, sem olhar pra trás. Afinal, não se importava se ele passaria bem ou não.


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