26 de setembro de 2017

Disease

Eu não soube o que escrever por anos.
Pairei sob a linha incerta do ontem e a esperança impossível do amanhã
Fiquei imóvel perante as certezas
Perdi um grande amor
Que não me amou
Que não me quis
E então eu a deixei
E ela me deixou
Eu sentei na calçada no fim de uma tarde vazia, uma taça de vinho em uma das mãos e um cigarro na outra
Uma cabeça perdida no meio do caos
E um milhão de sentimentos incompreendidos dentro de uma órbita sem nexo que vagava dia após dia em torno do sol...
Eu te olho menina, dentro dos meus próprios olhos o teu sorriso é o único que me vem a cabeça
E as vezes precisa doer pra eu ter certeza.
Eu te toco menina, mas agora só dentro dos meus pensamentos
Eu te amo menina, mas antes de ouvir isso você precisa saber que dentro de mim uma sombra existe

Essa sombra tem o meu rosto e as minhas feições, tem o meu corpo e meu jeito de andar, tem o
sorriso e o jeito de olhar igual ao meu, mas não tem o meu jeito de falar, as vezes ela aparece do nada como um fantasma escondido no meio de uma mata mórbida as vezes ela soa monstruosa e fria maltrata o que vier pela frente destrói toda chama de amor que foi construída

Ela me sabota todos os dias, mas as vezes ela dá uma pequena trégua, e noutras vezes, quando eu penso que está tudo bem e sorrio para o dia que vem vindo, ela me cobre, me doma, me controla, me faz ver e sentir as coisas que ela quer que eu sinta, me faz chorar e pedir a Deus pra ir embora desse planeta.

Até eu não me sentir bem vinda. Até tudo desaparecer frente aos meus olhos e tudo que restar não fizer nenhum sentido.
Sentido algum.
Você irá se assustar
E continuará sem me amar.
Seremos o karma.

Eu e você, uma continuação do que não deu certo em vidas passadas.

3 de maio de 2017


eu segui naquela rua escura que cruzava com a sua casa, estacionei o meu carro debaixo de uma árvore que sombreava a janela do teu apartamento.
tentei olhar através das luzes vermelhas que já iluminaram as nossas noites, cortei caminhos pelos bares tentando jogar pra fora a lembrança enquanto bebia noites afora garrafas de solidão.
"você também vai encontrar um novo amor," me disse.
e eu encontrei.
amores carnais entre tantas pernas enquanto beijava suspiros e fechava os olhos pra não precisar ver a merda que eu fazia enquanto eu tentava esquecer você.
te segui pelas sombras dos teus rastros, caminhei determinado a esbravejar teus lastros
te matei e depois desenterrei teus pedaços, tentei juntá-los enquanto esbravejava bem alto o desejo de te ter de novo
eu voltei tantas vezes ao mesmo espaço de tempo e lugar em que te disse o último adeus...
e depois te acompanhei silenciosamente, uma presença invisível, que já sabia de cor todos os teus andares. te vi chorar na varanda da janela nas primeiras madrugadas. eu nem conseguia piscar os meus olhos.
tentei escapar de você, mas você não ia embora de mim
sentia a tua dor me perseguir pelos becos e vielas até chegar na tua rua. onde eu parava o carro e olhava pra tua janela, algumas vezes te via passar de um lado a outro, a música baixa que vinha da tua janela me fazia lembrar que era sempre uma das nossas canções favoritas. eu sabia que você ainda não tinha esquecido.
eu até tentei te fazer notar que eu ainda ficava ali olhando você trocar de roupa ou até mesmo levar outros rapazes para deitar ao seu lado no fim das noites vazias que te preenchiam o tempo.
mas foi melhor assim.
o tempo foi passando e eu fui deixando de te seguir como uma sombra pelas ruas
fui esquecendo teus horários, perdendo o contato com o imaginário dos teus sentidos
acabava dormindo demais ou bêbado demais
deixei algumas mulheres tomar o meu tempo
e você mudou de endereço
de cidade
de país
quando dei por mim, seu rosto já me parecia um borrão à meia luz
os seus seios já não pareciam tão brancos e rosados
você já não conseguia iluminar os meus pensamentos com a sua cor
pude evitar te ver quando eu sabia que poderia te encontrar
conheci um outro bar, numa outra avenida principal

e então, te vi passar por mim numa tarde qualquer no meio de uma rua que parecia não ter fim e entre tantos rostos, o teu me parecia reencarnar das sombras de um passado que eu já tinha fingido que esqueci.

você me olhou e não sorriu.
passamos um pelo outro, meros estranhos atravessando caminhos
e então eu parei e olhei pra trás, você também olhou
e então sorrimos, como quem acha cômico para não ser trágico

em um impulso corajoso e ousado eu fui até você
achei que você iria recuar, mas você também teve coragem de ficar
e então eu me direcionei ao teu ouvido e em poucos segundos eu disse algo que parecia que vinha de uma outra eternidade, de um outro tempo, de uma galaxia distante onde o passado ainda era vívido demais pra ser real:
"eu nunca encontrei um novo amor."

7 de março de 2017

Of the pieces of my dreams.



Estou sentada à beira da varanda esperando tudo queimar. Acendo o meu cigarro, trago o luto, engulo a perda e solto o ar. A atmosfera trata de me por no chão. Mas que chão?

Eu não quero ficar presa à minha própria liberdade.

São dias tão difíceis de sobreviver...

Eu continuo a fechar os olhos enquanto uma revolta incontida me enche o peito, aos prantos eu sinto vontade de gritar. Será que tudo isso ao meu redor é o que me define?

Será que o meu corpo, a cor do cabelo, os cachos e o sorriso difícil é quem eu sou de verdade?

A vida fora de mim mesma parece não ter o mesmo sabor de antes, nem faz o mesmo sentido de antes. Eu faço sempre todas as coisas com um pequeno pesar de quem sente que não deveria estar ali. Mas de qual lado eu estou? (Se é que eu pertenço a um lado)

Se eu sou um todo cheio de partes, não existirá um encaixe perfeito pra um coração espalhado em vários cantos e perdido em meio a tantos sorrisos e olhares divididos. Sou um coração despedaçado em cada canto verde dessa cidade. Sou um poste estagnado, sem luz e apagado no escuro da esquina vendo a vida passar enquanto chove e faz sol.

Eu sou o agora perdido em meio a tantas oportunidades que eu deixei pra depois. Um sonho adiado. Uma promessa não cumprida. Um pedaço de um nada dentro de um tudo. Um pequeno grão carregado pela brisa chamada vida, de um lado a outro, buscando fazer um sentido.





Mas que chão é esse que meus pés não conseguem alcançar?